Pois é,
Araranguá - I
Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena estrodinaria,
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela.
Pido a los santos del Cielo
Que ayuden mi pensamiento;
Les pido en neste momento
Que voy a cantar mi historia
Me refresquen la memoria
Y aclaren mi entendimiento.
Vengan Santos milagrosos,
Vengan todos en mi ayuda,
Que la lengua se me añuda
Y se me turba la vista;
Pido a mi Dios que me asista
Em una ocasión tan ruda. 1
Meus últimos final de ano e carnaval de ilustre atirador passei-os em Morro dos Conventos, Araranguá/SC. Se meus já enfraquecidos neurônios permitirem a lembrança, creio que se passaram nove ou dez anos.
Y no son pocos diez años
Para quien ya llega a viejo.
Y los he pasado ansí,
Si en mi cuenta no me yerro;
[...]1
Morro dos Conventos foi, por um bom tempo, anos 70 e 80, a meca dos magrinhos. Junto com Garopaba e as demais praias do sul catarinense, eram o point daqueles que se diziam alternativos. Eternos hippies, ex-hippies, novos hippies, gente que nem sabia o que era um hippie, enfim, de tudo um pouco.
Até que chegaram los hermanos com sua característica inconfundível: afastar de perto de si todos os demais. O domínio dos hermanos durou todos os anos 90, desde que o camping foi adquirido por um representante da espécie. Só voltei lá por um convite de um casal de amigos para passar o final de ano acampando com eles
Eu, campista inveterado desde criança, topei. A namorada topou. Afinal, o que a gente não faz por... Bueno, deixa prá lá...
O final de ano, na companhia do casa de amgos até foi bom. O suficiente para que quisessemos voltar para lá no carnaval. Claro que não deu certo. O namoro terminou ali mesmo e o que era para ser quinze dias acabou virando quatro.
Essa era minha história com Araranguá até então. Eis que para minha surpresa, o Rafael Reinehr, que mora em Araranguá, aceitou o convite para almoçar aqui em casa. Afinal, não deixa de ser arriscado ir na casa de quem a gente mal e mal tem notícia pela internet. mais ainda quando esse alguém tem um blog e se autodenomina O Chato. Pensando nisso, fiz questão de parecer normal durante as conversas. Mandei fotos da mulher, das filhas e até dos gatos, tudo para mostrar que sou apenas O Chato e não um psicopata qualquer.
[imagino a cena dele sugerindo para a mulher - a Carol - que haviam sido convidados para almoçar na casa de um tal de chato e ela (modo sotoquejáquasecatarina on):
- se largares esse computador só um pouquinho a gente conversa!
- (jogando o notebook no sofá, mas com a tela virada pra ele) tá, já larguei!
- benhê, não será perigoso? Eu estou grávida e sabe-se lá o que essa gente é capaz de fazer!
- não te preocupa que já fiz minhas pesquisas. Tenho gente em Porto Alegre que conhece ele e me disse que é inofensivo. No máximo vai ser chato, mas isso a gente aguenta! E pô, o cara tá oferecendo um churrasco.
- Tá bem, mas se eu não gostar de lá, eu faço uma cara de quem está enjoada com a gravidez e nós vamos embora, certo?
- certo! ]
Pois bem, a visita deles está aqui.
A segunda surpresa, e essa sim uma grande surpresa, foi ter recebido, ainda no mesmo dia, um convite para vistá-los em Araranguá. Tá certo que o cara cometa um erro, mas três? Vir na minha casa já parecia ser algo arriscado (1), mas sair daqui e me convidar para passar um fim de semana lá (2), mesmo que tenha sido apenas por educação ou gentileza (3)?
[pensei, pensei e cheguei a seguinte conclusão: o que eles gostaram mesmo é da companhia da minha mulher e da minha filha. O Rafael não resistiu ao abraço que a Condessa deu nele assim que o viu. Por sinal, tamanha espontaneidade sequer eu mesmo tinha visto. É, eu sou o preço a ser pago.]
E então resolvemos ir. Conversa daqui, conversa dali, e a única coisa que ele me perguntou foi o que a Condessa e a Kaya gostavam de comer. Um tiro certeiro na minha tese de que eu seria apenas o motorista, um chato necessário, o preço a ser pago para receber mais um daqueles abraços da Condessa. Assumi minha função. Afinal, até coadjuvantes ganham o Oscar. Quem sabe eu não ganharia o meu, em forma de um naco de picanha?
Yo no soy cantor letrao,
Mas si me pongo a cantar
No tengo cuando acabar
Y me envejezco cantando:
Las coplas me van brotando
Como agua de manantial.1
E não é que ganhei mesmo! Olha só:
A tarde foi de passeios, para mostrar onde "o rio beija o mar":
Advinha para quem? Para ela, claro:
De sobra, além de motorista, servi de fotógrafo:
Entonces... quando el lucero
Brillaba en el cielo santo,
Y los gallos con su canto
Nos decían que el dia llegaba,
A la cocina rumbiaba
El gaucho... que era un encanto. 1
E assim foi. Depois de uma passadinha no hotel, retornamos ao som dos gallos para ver el gaucho que a la cocina rumbiaba para fazer o melhor salmão do mundo, acompanhado de batatas cortadas ao meio e assadas com casca.
[sou obrigado a recordar - e não para que sintam pena, mas para que a verdade seja registrada - que nas conversas preparativas comentei que a Kaya, como catarina que é, adora peixe. Terá sido coincidência ter aparecido um salmão no jantar?]
O salmão estava tão fabuloso que até me esqueci da minha função coadjuvante de fotógrafo: não tirei nenhuma foto. Pudera, mesmo eu que sou picanheiro, comi três postas do salmão, sempre acompanhadas das batatas.
Atención pido al silencio
Y silencio a la atención,
Que voy en esta ocasión,
Si me ayuda la memoria,
A mostrarles que a mi historia
Le faltaba lo mejor. 1
Terminado o refesteleio salmoníaco, a Carol, com justa razão, foi acostar-se. E eis que então
Siento que mi pecho tiembla
Que si turba mi razón,
Y la vigüela al son
Imploro a la alma de un sabio
Que venga a mover mi labio
Y alentar mi corazón. 1
Eis que el sabio resolve alentar mi corazón:
E assim passamos o primeiro dia...
1Trechos do poema Martin Fierro, de Jose Hernandes, tirados da 2ª edição, de 1944.




























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