A Mara pede que eu diga meus livros preferidos. Tinha feito uma lista anos atrás para o extinto site Tiro&Queda. Através da Mara, fico sabendo que Roberto Freire (o escritor, não o político) morreu. Tinha feito um texto para o T&Q sobre um encontro que tive com Freire. Aproveitei que fui lá nos recônditos dos arquivos buscar um e busquei mais outro. Tão aí os dois.
Dez livros:
1 - Trópico de Câncer - Henry Miller - O chute na bunda da literatura, o cara que sai dos EUA num navio com 10 dólares no bolso para ganhar a Europa e fazer o que deve ser feito. O "sonho" de todo pretenso escritor.
2 - O Apanhador no Campo de Centeio - J.D. Salinger - Gente como a gente, Holden Caufield, o personagem principal, "não encontra par nisto tudo neste mundo" - para citar Fernando Pessoa.
3 - Laranja Mecânica - Anthony Burguess - Delinquência, inovação narrativa, subtexto de investigação social, reflexão. Um livro que foi meio obscurecido pelo maravilhoso filme de Kubrick - mas GRANDE literatura.
4 - Moby Dick - Melville - De todos os clássicos o mais perturbador, cheio de referências psicológicas e mitológicas, do tipo que, definitivamente, EU GOSTO. Não é só uma "caça a uma baleia" como muitos pensam. O Alexandre tem GRANDES ANÁLISES sobre o livro lá no blog.
5 - O Processo - Kafka - O absurdo como parte de um cotidiano tão mais absurdo que chega a ficar engraçado e aterrador ao mesmo tempo.
6 - O Estrangeiro - Camus - Um crime. De quem é a culpa real? Até que ponto se pode julgar um ato, um homem? Bom, o Camus tem outros livros maravilhosos, mas a concisão desse pesou na escolha.
7 - Malone Morre - Beckett - Um homem (?) deitado em uma cama de hospital (?) na impossibilidade de ver (?) cria, recria, inventa memórias povoadas de situações absurdas (?). Pois é, Beckett é uma série de interrogações: nunca se sabe exatamente o que se está lendo - mas tem MUITA COISA ali. (Parte da trilogia composta pelos ótimos "Molloy" e "O Inominável")
8 - Retrato do Artista quando Jovem - James Joyce - O fluxo narrativo é o fluxo de consciência do narrador, suas lembranças cíclicas, redundantes, os pequenos detalhes que vão sendo alterados pelo discurso... Joyce aparece sempre nas listas com o "Ulisses" ou o "Finnegans Wake" - não li nenhum deles, acho muito difíceis. Esse é muito legal e pequeno.
9 - Tanto Faz - Reinaldo Moraes - Brasileiro, um livro pouco conhecido, é o meu livro "personalista" da lista. Um estudante brasileiro em Paris, nos anos 60. Cheio de referências pop, "Tanto Faz" é precursor de Nick Hornby e de toda "nova literatura pop".
10 - Frankenstein - Mary Shelley - Esse livro é maravilhoso, conta uma história única, tão cheia de referências quanto Moby Dick. A escolha foi difícil pois tive uma fase de terror com o "Drácula" do Stoker, o "Médico e o Monstro" do Stevenson e "O Exorcista" do William Peter Blatty. Mas devo registrar que um dos melhores livros de terror de todos os tempos, pra mim (e só preterido pelo "Frankenstein" pelo "peso histórico") é "O Inquilino" de Roland Topor. "O Inquilino " virou ótimo filme de Polanski e era um livro do qual Borges gostava bastante.
Se a lista fosse de 11 livros, acrescentaria a HQ "Watchmen" de Allan Moore - para mim, ALTA LITERATURA. Se fossem 12, colocaria "Batman - O Cavaleiro das Trevas" do Frank Miller.
Ah, devo dizer que sou fã super do Thomas Harris.
Só não inclui o A Sangue Frio", do Capote, por ser mais uma ampla reportagem que ROMANCE.
---
Encontro com Roberto Freire - originalmente publicado em 07.07.2003
Roberto Freire ia chegar em Limeira às seis da tarde e eu próprio me pautei eu mesmo para entrevistá-lo. A entrevista, em virtude do horário e da urgência, iria para o ar no mesmo dia. Teria que fazer uma entrevista rápida, voar para a TV, editar porcamente e colocar no ar. O Zovico, dono da TV, quando contei sobre o esquema, perguntou: "Mas quem é o Roberto Freire? É o cara do Partido Comunista?". Não, falei. É o escritor homônimo, somaterapeuta, o homem que escreveu o livro "Sem Tesão não há Solução". Ah, bom.
Montei o jornal e saí para esperar Freire. Na biblioteca umas 20 pessoas o aguardavam. O último livro dele estava entre os mais vendidos, mas não lembro qual era. Chegou atrasado, cerca de 18h30. Meti a cara e pedi para que me desse uma entrevista rápida antes da palestra. Ele aceitou.
Tapa olho, parecido com um capitão Ahab ou um Gancho do Peter Pan, barba por fazer, três óculos no pescoço, Freire suscitava um certo dó, uma certa pena. Olhar aquele senhor velho, com um olho coberto, o outro lacrimejando, aquele monte de óculos no pescoço...
Mas quando falava, sua face se iluminava. O tema básico que defendia era a honestidade acima de qualquer coisa: como estilo de vida, como diretriz no trabalho, no relacionamento. Seja honesto com você mesmo: se está com uma pessoa, num relacionamento, e tem vontade de sair com outra, conte para sua parceira. Discuta isso. Pense sobre o porque desse desejo. E se for importante para você sair com essa outra pessoa você deve fazê-lo - nem que seja para perder seu parceiro. A honestidade direta de você para com você mesmo: é isso o que conta.
Assim é na vida profissional. Mantenha uma postura. Não fique lambendo o chefe ou o patrão pelo emprego. Não precisa ficar dizendo que a gravata dele é linda - só para manter o emprego. O patrão não te faz um favor. Ele ganha dinheiro com você. Seja firme e honesto com ele e mantenha a integridade consigo mesmo.
Essa filosofia de vida não vai contra os padrões morais estabelecidos? Vai. Mas somos nós mesmos que estabelecemos os padrões: nós podemos mudá-los. É muito difícil e, provavelmente, não consigamos isso. Tudo bem: pense nos seus filhos, nas próximas gerações. Você quer que o seu filho tenha os mesmos relacionamentos truncados que você teve? Você quer que seu filho tenha a mesma angústia de homem casado que você tem hoje? Você quer que seu filho mate seu sonho para trabalhar num emprego medíocre como o seu só porque ele vai poder comprar um carro do ano?
Ser libertário é pensar em todas as gerações futuras.
Voei para a TV, todos aguardavam para "fechar" o jornal. Fiz uma edição porca e rápida da entrevista e ela foi pro ar no encerramento do jornal, com cerca de 4 minutos (o que é muito). O Zovico não gostou, pois não conhecia Freire. Também não achou coerência no que ele falou.
Coerência é para quem procura.
Procuremos.