Bom, todo mundo minimamente por dentro do mundo do cinema sabe que o Oscar é uma festa comercial e conservadora. Ter ampliado para 10 o número de concorrentes a melhor filme não é um exercício de democracia, é só para ter mais gente torcendo e mais audiência para o prêmio. Nos últimos 10 anos vem diminuindo o interesse pelo Oscar. Sempre foi chato, mas agora tem coisas mais interessantes. Como o BBB 10 ou a orca que comeu a treinadora. Ok, péssimos exemplos.
![]()
Assim, ainda acho que esse Oscar vai ser uma lavada de "Avatar", como já escrevi antes. É um filme conservador, que reavaliza a cartilha de Joseph Campbell da "Jornada do Herói" através da tecnologia. Foi assim com "Guerra nas Estrelas: George Lucas disse que todos os confins da Terra já eram conhecidos, ele teve que ambientar a jornada do herói no espaço, a "última fronteira". Cameron fez igual, criou um universo. Mas, sob perspectiva, a iniciativa tem ainda menos originalidade que "Guerra ao Terror".
"Guerra ao Terror" conta quase a mesma história de "Avatar". Pode parecer incrível dizer isso, mas o Iraque é tão estranho a qualquer um de nós quanto Pandora. Sim, são seres humanos que habitam lá, mas tão estranhos a nós que nem precisam ser azuis ou ter três metros de altura. E no Iraque também existem desafios a superar, tanto do herói quanto dos personagens periféricos ou das situações. Nesse sentido, embora muita gente continue escrevendo isso, "Guerra ao Terror" nada tem de original. Nada. Temos ali o mesmo herói bad-boy viciado em adrenalina, correndo os riscos e se dando bem, como sempre vemos no cinema americano. É o cara que contraria as regras e encara o perigo. É o cara que usa o instinto em detrimento da técnica. É Luke Skywalker entrando na Estrela da Morte. Cameron e Bigelow fizeram quase o mesmo filme. Como Cameron tinha mais dinheiro, criou um mundo novo. Bigelow transferiu as inquietações para uma fronteira próxima nesses tempos de globalização e, ainda assim, tão distante.
Dizer que os filmes são originais é besteira. "Distrito 9" tem uma boa premissa, inverte os papéis, coloca gente estranha no "nosso" mundo. Acerta em não criar o gueto em Nova Iorque e sim em Johanesburgo; como o Iraque, tão-longe-e-tão-perto. Mas cai no erro de querer transformar o filme, no final, em um filme de ação, cheio de efeitos especiais. Acaba sendo também conservador. O final é clichê.
Acho engraçado que gente babe por "Amor sem Escalas" ou "Educação". Já vimos esses filmes zilhões de vezes. Zilhões. E isso não tira o mérito desses serem bem realizados, com bons atores. Mas só cumprem a obrigação. Quantas vezes vimos garotas ou garotos irem contra a vontade dos pais para vencerem seus desafios? E quantas vezes vimos homens durões, que sempre juraram nunca se apaixonar, dobrando os joelhos por uma mulher? Temos aí o "Coração Louco" que conta essa mesma história - mas é o cantor Jeff Bridges e não o galã Clooney quem dá as cartas. É sério: comparem os roteiros de "Amor sem Escalas" e "Coração Louco" e veja se não temos o mesmo script!
Além do mais, Reitman é um diretor mediano, pelo amor de Deus!
Os críticos e "analistas das coisas todas" ficam repetindo sempre as mesmas coisas e o povo acaba acreditando. Não tem novidade nesse Oscar. Tirando Tarantino, que é maluco por cinema como Hitchcock, Kubrick e Scorsese, louco genial que fez o filme mais sensacional do ano, o resto é beeeeeem igual. Bem massa. Bem cartilha. Bem no-innovations.

Veja o que todos estão dizendo da "maravilhosa fotografia" de "A Fita Branca". Alguém ouviu um fotógrafo de cinema sobre aquela fotografia? Não. Qualquer fotógrafo vai dizer que filmaram com cores e tiraram a cor depois, não há nada de fantasmagoricamente genial ali. Nada! Alguém falou sobre a "genial fotografia granulada" ou que a "frieza da transmissão da imagem capta o substrato do não-dito" - mas é tudo balela. Na realidade, para ser realmente impactante como pede o filme, aquela fotografia deveria ser muito mais contrastada! Brancos e pretos duros para mostrar a rigidez da sociedade da época - uma época que não permitia o cinza.
Aí fica todo mundo babando ovo na porra da fotografia - praticamente tiraram a cor do filme, como a gente desligava a cor da TV, quando tinha aquele botãozinho de colocar ou tirar cor.

Outra coisa que irrita são comparações do tipo: Meryl Streep ou Gabourey Sidibe. Ora, é claro que não dá para comparar carreiras, estamos falando de filmes específicos! Bota a Meryl para fazer o papel da Gabourey em "Preciosa"! Ela não faz! Uma besteira dizer que Meryl "é melhor" que Gabourey. No Oscar desse ano, Gabourey merecia a estatueta. Ela nunca terá a possibilidade de fazer um papel tão ajustado ao seu físico. Como o que aconteceu com a surda-muda Marlle Matlin, que ganhou o Oscar de melhor atriz em 1986 com "Filhos do Silêncio". Matlin concorria com Jane Fonda, Kathleen Turner e Sigourney Weaver. Naquele ano as atuações das outras viraram pinto.
Para finalizar, sim, o filme dos Coen é original, mas a carreira deles está indo para o lado da bizarrice. Star Trek está no páreo de efeitos e devia ganhar, já que são os efeitos mais cool do ano. Deviam anular o prêmio para atriz coadjuvante, isso sim seria inédito.
Mas não vai ser desse jeito e todo mundo vai ficar feliz.
Esse é um mundo injusto.













