Quando fiquei sabendo de Lou Reed na FLIP, como grande fã, pensei: "uau, olha só, meu ídolo vem para o Brasil, vou lá tietar e pedir um autógrafo". O segundo pensamento foi: "mas... peraí! Esse é um evento literário e não um festival de rock! O que esse cara vem fazer aqui?".

Ah, poxa, sim, é inegável a importância de Lou Reed para a música de maneira geral. Nos quesitos "temática" e "poesia" ele é um dos grandes - e lá se vão bons 45 anos! Musicalmente, teve grandes colaboradores que moldaram seu som, como John Cale, David Bowie, Dick Wagner, Fernando Saunders, Robert Quine, Mike Ratke, entre outros - e, se não fossem esses caras, não sei se Reed iria muito adiante em suas inovações musicais.
Mas... o que ele escreve pode ser lido fora do contexto musical? Pode estar desagregado do ritmo, da música e da performance? Tem, ér, sustentação no papel? Pois, como grande fã, digo que não.
Uma vez Reed disse que a língua inglesa é ótima para o rock pois tem abundância de monossilábicos. Faz todo sentido, e as palavras monossilábicas abundam nas letras de Reed. Esse é um dos elementos que dá ritmo à canção. Com o jazz, ele aprendeu outra manha: a da repetição. Pedro Só escreveu uma vez, sobre "Ecstasy" (1999) último bom disco de Reed, que era "muito repetitivo". Bem, essa é uma característica do repertório reediano: a música precisa se estender e então ele repete, já que não tem muito a dizer. Muitos vêem, nessa repetição, um elemento dramático e isso realmente acontece em alguns casos, como em "The Gun", música do disco "The Blue Mask". Mas, na grande maioria dos casos, a repetição está ali apenas para tentar engendrar um refrão, para estimular o ouvinte a simpatizar com a canção, sem efeito dramático e muito menos literário, quando se lê a letra no papel.
Se houvesse um prêmio Nobel (Reed começa a dizer que merece um) para música barulhenta, especialmente nas performances ao vivo, Reed podia reivindicar o prêmio máximo: é praticamente o inventor do feedback, da distorção, do "barulho emocional". Isso não se estende à poesia, às letras.
"Walk on the Wild Side", única música de real sucesso de sua carreira, é uma grande canção - pensada por Bowie - com grande letra de Reed. Vai descrevendo histórias de pessoas do underground. Não é uma grande novidade, a geração beatnik tinha poemas mais interessantes na mesma linha, mas Reed popularizou isso, levando para uma canção. Que tocou no rádio. E que o transformou numa espécie de porta-voz do movimento. Mas ele não conseguiu fazer nada na mesma altura - nem tão pop, nem tão emblemático. Depois desse disco, "Transformer" (1972), fez um álbum belíssimo, "Berlin", que tem como grande característica o hermetismo. Não sabemos sobre o que ele fala, o disco parece ser conceitual, contar uma história, parece que é sobre ele e sobre o fim do Velvet Underground e da complicada relação entre ele, Cale e Nico. Mas não temos essa certeza. E, no final, fica apenas parecendo que Reed estava sem assunto e queria ombrear com Bob Dylan - que estava no auge de suas longas e monocórdias elocubrações musicais/poéticas, como "Visions of Johanna", letra pela qual ele mesmo concorreu a um Prêmio Nobel anos atrás. Não que "Berlin" não seja maravilhoso e viajante e musicalmente inebriante com seus arranjos sinfônicos inusitados para um ídolo pré-punk. Não, o disco é belíssimo, mas as letras parecem mais um arrazoado de lástimas de alguém afundado nas drogas, se lidas num papel. Com música, viram um turbilhão de sentimentos.
É por isso que digo que Reed não é um poeta, é um letrista de rock. Dos bons. Mas o barulho precisa estar ali para tudo fazer sentido.
Há algum tempo, Reed vem experimentando a mesma complacência de Tom Waits, por parte da grande crítica: qualquer merda que lançam, todos dizem que é uma maravilha. Estão investidos da autoridade de serem independentes dentro da massacrante e uniformizante indústria do rock - e isso dá a eles o benefício da avaliação indulgente. Pois o que Reed vem fazendo nos últimos 10 anos é uma merda, o cara podia ter parado em 2000 e teria uma obra respeitável e digna. Aparentemente careta, faz música pra ouvir na beira do rio para meditar, faz música pra cachorro, faz música com aquela tia gorda e insossa do Antony, com o The Killers, com o Gorillaz. Não me impressionaria se aparecesse com uma versão de "Walk on the Wild Side" com a Lady Gaga. Eu, como fã, viro motivo de chacota.
Reed sempre reivindicou um élan literário, pura viagem de sua cabeça cozida em barbitúricos. Eu não acredito que ninguém tenha detonado a sério essa idéia que ele vem divulgando há décadas de que se inspira em Chandler e Hammett e Poe para "criar" suas letras. É deprimente. Se eu fosse um crítico da Rolling Stone perderia umas horas para desconstruir essa falácia de Reed, apontar que suas letras não contém nada, NA-DA, do romance noir, do texto de mistério e de whodunit. Não tem nada do terror de Poe. Tem, com muita boa vontade, a fala direta ao ouvinte - e é diferente ouvir um texto a ler um texto, então Reed é muito mais rítmico e cadenciado que um Poe, que é escorreito.

A vindicação de lugar no panteão de autores fez com que Reed publicasse, em 2002, um livro com suas letras, mais de 300. Não podia ser mais um livro com letras de um autor de rock: tinha que ser um projeto "artístico". Assim nasceu "Pass Thru Fire", livro que eu comprei assim que saiu. O que Reed fez? Ele tratou cada conjunto de letras de cada disco de maneira visual diferente, e achou que estava fazendo algum tipo de arte.

Mais uma vez mostrou que ele só entende de música. Ele pega um disco e trabalha as letras visualmente de modo diferente, até esgotar todos os tipos de disposição na página, até não saber mais o que fazer com as letras. Se ele tratasse a cada letra de música de maneira diferente, talvez obtivesse bons resultados. Mas não: ele escolhe um álbum e decide que, naquele, algumas palavras terão letras borradas, como se alguém tivesse chorado sobre elas. Nas letras de algumas canções, funciona. Em outras, não. Fica um pusta rock do crioulo doido que parece querer mais é tirar nossa atenção para as sofríveis poesias - ainda que sejam maravilhosas canções.



Do alto dos seus 65 anos, Reed já fez de tudo nessa vida. Imagino que eu precisaria de três ou quatro vidas para fazer o que ele fez - e acho que não teria tido coragem para algumas coisas. Mas uma coisa é fato: ele não sabe escrever para o outro ler. Isso é diferente, isso é complicado. Não por acaso, Reed tem publicado alguns livros de fotografias. Visualmente, ele tem apuro estético, parece conseguir diálogo com o espectador. Mas encadeando palavras numa folha, ele é só um grande músico de rock.
Na verdade, um dos melhores.

(As fotas desse post foram feitas pela Dona Fresca, que está virando fotógrafa)
Apdeite:
Bruno Porto informa que o design do livro de Reed, que vai sair no Brasil pela Cia das Letras, é de Stephan Sagmeister - deve ser tudo dele mesmo, apesar de Reed reclamar o "conceito" do livro. Sagmeister fez o pôster de Reed abaixo:
