Quando eu estava aprendendo a dirigir, meu pai me disse que seria bom sempre estar prestando atenção ao que acontecia mais adiante, cem, duzentos metros à frente. O conselho revelou-se oportuno e utiliíssimo, até mesmo se aplicado metaforicamente a outras tantas situações da vida.
Me ensinaram também a ter um caderno e anotar coisas por fazer. O conselho revelou-se oportuno e utilíssimo não só para situações de trabalho. Porque memória é coisa muito boa, e tals, mas não a ponto de merecer confiança.
Aí me ensinaram que, se você está numa escada rolante e está sem pressa, o ideal seria ficar parado do lado direito, deixando o esquerdo livre pra quem está na correria. O conselho revelou-se oportuno e bom seria que todo mundo que pega trem aqui em São Paulo tivesse aprendido também.
Acabo de ler a última linha desse livro; ele está revolvendo aqui dentro. Sei que vai continuar assim durante um bom tempo.
Eu possivelmente jamais teria ouvido falar dele não fosse ter que dar pro amigo secreto do último natal uma dica do tipo de presente que não me deixaria frustrado. Entrei então no site da Saraiva e essa era uma das opções que estava por ali. O enredo pareceu interessante: estamos falando de um menino de 15 anos que assassina nove colegas de escola, doze dias antes do massacre de Columbine e quem conta a história é a mãe dele, através de cartas.
Lionel Shriver ouviu não de 30 editoras antes de alguém ter coragem de publicar algo que toque numa ferida nacional assim desse jeito.
Pois bem, trata-se de um livro excelente. Tem 463 páginas que você praticamente devora. Todas aquelas oficinas de escritores nos EUA, com suas dicas matemáticas de a quantas páginas tem que aparecer alguma coisa triste, de quantas em quantas páginas uma reviravolta ou a revelação de um segredo deve acontecer, etc, ajudaram bastante L. Shriver, mas este livro vai bem além do mero apropriamento servil dessas formulinhas (que é o que, por exemplo, O caçador de Pipas, um sucesso brutal, faz). Ele apresenta raciocínios argutos, insights brilhantes sobre a cultura do povo americano e sobre a alma humana de forma mais geral. É profundo, complexo e arquitetado com perfeição impressionante.
O livro disseca a tragédia de um lugar onde tudo funciona e todos têm a perspectiva de uma vida confortável, um lugar onde se cultiva com fervor a aparência de felicidade, mas cujo combustível para isso (comida, consumismo, debates políticos inócuos e algum sexo) se revela cada vez mais ineficaz.
A mãe do assassino se pergunta o tempo todo se a culpa foi sua, como todos, explícita ou tacitamente, dão a entender. Ao invés de eximir-se da culpa, ela disseca a vida em família desde o começo, reconstituindo minuciosamente as passagens marcantes e emblemáticas do caminho para a barbárie e você tem aquela sensação de voyeur devassando a intimidade de algo que o mundo inteiro vê só pelas lentes da encenação.
Acho que é um péssimo livro para alguém que ainda não teve filhos ler. Isso pode prejudicar a decisão de um dia procriar. Mas Precisamos falar sobre o Kevin
é muito mais do que uma história sobre criação de filhos; é o retrato de uma sociedade que atingiu um sucesso tão retumbante em sua busca pelo bem-estar, que se permitiu defenestrar a Deus de sua vida.
Em poucas palavras, trata-se de um aparelho vendido a 359 dólares na Amazon.com através do qual você pode, a qualquer momento, baixar mais de cem mil livros, inúmeros jornais, revistas e blogs. Wireless. Você pode fazer isso de qualquer lugar. O Dowload dura em média um minuto. O aparelho é leve e foi desenhado para dar ao leitor a experiência de leitura em papel. Você não paga uma tarifa mensal, apenas a cada download, e os preços são cerca de um terço do valor dos livros em papel.
Há uns dez anos fui convidado a participar de uma mesa redonda para discutir o futuro dos livros. A conclusão mais ou menos unânime foi de que nada jamais substituiria a experiência de ler no papel. Portabilidade talvez fosse a razão principal que orientava a conclusão.
Como se vê, dez anos são suficientes para revoluções gigantescas hoje em dia. Tudo pode mudar radicalmente em muito menos tempo.
Imagino num futuro muito próximo escritores que vão lançar seus livros exclusivamente por esse sistema e, numa versão 2.0 do Kindle, haverá um fone de ouvido; assim, o escritor escolherá as músicas que deverão acompanhar a leitura, criando atmosferas, dialogando com o texto...
Kindle também representa um outro fato marcante: temos uma empresa que especializou-se em vender livros pela internet e tornou-se uma gigante assim. Temos a tecnologia avançando sobre os livros. Ela, então, toma a frente e desenvolve a convergência aparentemente perfeita da experiência (por lazer ou obrigação, não interessa) de ler com a tecnologia que tanto a ameaçava. Essa criatividade empresarial é a única salvaguarda das corporações imersas no epicentro dessa revolução que estamos testemunhando.
Como um leitor voraz que só tem os trens e metrôs de São Paulo para dar vazão a essa minha sanha por ler, eu não vejo a hora de ter o meu Kindle.
Eu sei que pode parecer que aprendi agora como se posta vídeos no blog, mas é só impressão. O fato é que descobri lá no iútchub um dos melhores momentos do Saturday Night Live dos últimos tempos. Como hoje é sexta, pára tudo e veja.
E lá fui eu e senhora, cortando com nossos corpos encasacados o frio noturno que instalou-se ontem em São Paulo, assistir à pré-estréia de Agente 86. Tatiana, pega de surpresa, ia meio de má vontade achando que era um filme a la James Bond ou A identidade Bourne e só me acompanhando porque, afinal de contas, era cinema de grátis. A pobrezinha não tem idade para ter assistido às tripulias absurdas de Maxwell Smart. Quando viu no cartaz o Steve Carrel e a Anne Hathaway, suspirou aliviada.
Adianto aos meros mortais que não assistiram ainda que o filme tenta atualizar a atmosfera da série dos anos 70, mas optaram claramente pelo aspecto mais pastelão da comédia. A série tinha um humor histriônico e muitas vezes sutil, típico de um Mel Brooks em grande forma, revelando seu lado mais hilário na trama estrambótica. O filme não liga tanto pra isso, acaba querendo fazer uma paródia de 007 e apela para situações escancaradamente hilárias. É irregular, tem momentos chatos, mas 80% dele é constituído de cenas de ação realmente muito engraçadas.
Extremamente endorfinante, portanto. E tem aquele ar retrô que nós, trintões, adoramos respirar relembrando os bons tempos, em que a Band exibia Kung Fu na hora do almoço e Agente 86 no final da tarde, e quando tudo o que um ser humano normal poderia aspirar na vida era ganhar uma bicicleta no Bozo.
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Anne Hathaway, uau, quem diria! Aquela coisinha "quase lá" de O Diabo veste Prada chegou lá e com folga.