terça-feira, 13 de maio de 2008
Cidadãos do mundo, o sufoco, a ponte estaiada e outras notas
i.
Narrei alguns posts abaixo impressões de minha primeira viagem ao exterior. Pois hoje notei que há ainda impressões sobre o fato, mas de um tipo específico, que precisam maturar para emergir.
E foi depois de sentir muita saudade de bagel e de Ben & Jerrys, da Keiko e do Johnny, da Lilian e do Klebert, depois de ver nos estádios de baseball que o Sportscenter mostra placas de redes de loja que eu agora conheço, de ver lugares no Friends ou sei lá onde que eu conheço.
Notei hoje, portanto, que o mundo é muito grande e que talvez eu haja dedicado tempo demais a uma porção muito acanhada dele.
Sempre tive uma mal disfarçada inveja de amigos com uma vocação inata para cidadãos do mundo. Cresci num meio de classe média-baixa, onde viagens internacionais eram altamente improváveis, mas ainda assim alguns meteram os peitos e voaram sem olhar para trás. Muitos deles perderam por completo o senso de pertencimento a um solo específico e continuam voando até hoje.
Aí eu penso que conheço bem demais as mesmas esquinas, acompanhei de perto demais as alterações na fisionomia de uma porção muito restrita desse mundo que é enorme, uma porção pequena demais se comparada a todo o mundo que está ali fora e que até há pouco me parecia pertencer a uma realidade paralela, uma outra dimensão qualquer.
Não é uma angústia. É um daqueles momentos em que a gente olha para trás, para a vida que teve e se pergunta, meio que divertido, "e se...?", como os gibis de heróis que eu lia quando adolescente ("E se Flash Thompson tivesse sido picado pela aranha radiativa?" "E se Galactus tivesse vencido o Quarteto Fantástico?"...)
Aí ecoa uma citação, que eu não consigo lembrar de quem (Fernando Pessoa?): "Para ser universal, sê provinciano", ou algo do gênero. Ou seja, o universo inteiro está aqui, no meu círculo diminuto. mas é preciso ter o olho, o ouvido e o coração abertos para notar.
ii.
Tomei um táxi às 08h20 para estar no aeroporto de Congonhas no máximo às 09h00 para pegar um vôo às 10. Só que um trânsito surreal me fez chegar às 09h40. Corri naqueles terminais de auto check in só por desencargo de consciência e para minha surpresa a máquina cuspiu o meu bilhete, que dizia que o embarque começava quinze minutos atrás.
Corri até o portão de embarque e consegui ainda entrar no avião. É que se eu cheguei 10 minutos depois do horário limite para o check in (meia hora antes da decolagem em vôos domésticos), o vôo atrasou 15.
Acomodei-me na espremida poltrona agradecendo a Deus o fato e pensando que São Paulo está muito perto do colapso. Até lá, viveremos o sufoco.
iii.
Duas horas e meia de Confins-MG a Divinópolis, meia hora de audiência e mais 2 horas e meia de volta. Sorte máxima foi a locadora ter-me dado um up grade de carro. Peguei um Vectra, e não o carro popular que havia reservado, o que me fez chegar menos moído do que deveria.
O que achei da viagem? Vislumbres do Brasil do futuro ao cruzar o parque industrial da grande BH (o Brasil de vocação para grande - "ai essa terra ainda vai cumprir seu ideal/ainda vai tornar-se um imenso Portugal..."), muito mato alto na beira do caminho, pista de mão única cheia de caminhões enervantes e um ódio moderado da oferta de rádios para me fazer companhia ao longo do caminho. E mulheres bonitas em abundância, como sói ser em Minas, a terra de 2 mulheres para cada homem.
iv.
Agora na volta passei por cima da recém-inaugura ponte Octavio Frias Filho, a Ponte Estaiada. No peito, um misto estranho. Minha porção mais esquerdista lamenta o desperdício de dinheiro numa obra dessa envergadura quando linhas de metrô a mais fazem tanta falta à cidade do quase-colapso. Mas minha porção deslumbrada se envaidecia da beleza da obra, como uma patricinha com os olhos brilhando pela aquisição de uma nova Fendi, calculando o efeito que a aquisição faria nas outras meninas.
- Marco Aurelio Brasil | 23:59 |
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terça-feira, 6 de maio de 2008
Famílias felizes, Homem de Ferro e Dicas de Sedução
i.
No aeroporto de Congonhas estão distribuindo gratuitamente uma revista chamada Welcome Congonhas há já um ano. Na última página da edição 13 há um belo texto escrito por Fabio Hernandez, que até então eu desconhecia por completo. São notas de reflexões disparadas por uma sessão de antigos slides encontrados por seu irmão com cenas de família. O pai do escritor morreu quando ele ainda era bem jovem e é a ausência dele que é cantada nas linhas da crônica que li.
O que me angustiou um pouco foi esse trecho do texto: "As cenas recapturadas por Eddy centravam-se numa única época. Se fosse sintetizar essa época, diria o seguinte: os últimos dias em fomos felizes".
Não sei se ele queria dizer felizes como uma família, como uma pequena coletividade de pessoas reunidas por laços de sangue e afeto, ou se queria dizer que os membros daquela família inteira deixaram de ser felizes irremediavelmente por conta da ausência da figura do pai. Entende a diferença? Ele poderia até ser feliz, sua mãe também e seus irmãos, mas a família deles não.
Não importa, na verdade. Não sei se o fato de eu estar dentro de um avião, longe da minha família, me sugestionou de leve, mas foi inevitável pensar no que ocorreria se eu morresse. O que seria da Tatiana, do Eduardo e do Davi? Minha supressão os condenaria à infelicidade? Sei que há gente egoísta o bastante para isso, mas de certa forma, se eu acreditasse em consciência no pós-morte (não acredito. Acredito em ressurreição, como fala a Bíblia, são coisas bem diferentes), o fato é que eu me sentiria um fracassado se minha família fosse infeliz por eu não estar mais lá.
Porque penso que felicidade é mais que contentamento. Este passa. É um estado de espírito. O outro está fundado em algo que não muda. E eu tenho cá pra mim a pretensão de estar contribuindo pra que eles todos sejam felizes, não contentes.
* * * * * * * *
ii.
Audiência cancelada. De repente, uma infinidade de tempo livre. Um shopping (bem bonito, aliás) bem ao lado do forum. Fui lá então e comprei ingresso para assistir ao único filme em cartaz: Homem de Ferro. Só precisei esperar meia hora para começar a sessão legendada.
Well, eu já fui um grande aficcionado em quadrinhos de heróis, mas o Homem de Ferro, junto com Thor, Capitão America, Flash, Lanterna Verde, sempre foi do tipo coadjuvante, do tipo que todo mundo conhece mas pouquíssima gente se apaixona, do tipo que rara, muito raramente, rende uma boa história.
Não esperava muito, e talvez por isso me supreendi agradavelmente. Recebeu, ainda na metade do filme, o título honroso de melhor adaptação dos quadrinhos para o cinema que eu tive ocasião de ver. Melhor até que X Men, detentor do posto até então.
Homem de Ferro, filmado no recém inaugurado estúdio próprio da Marvel Comics, tem um roteiro menos bobo que a maioria das outras adaptações, com diálogos ágeis e inteligentes, atores excelentes (Gwineth Paltrow, que saudades de você! E o Downey Jr. está sensacional como Tony Stark, e Jeff Bridges faz um vilão muito, muuuuuito bem. Fica até feio pros caricatos demais Willem Dafoe e Colin Farrell) e efeitos pra lá de convincentes. Mais que isso, umas pitadas de humor inesperadas dão um bom tempero.
Faltaram cenas de ação. Dá pra contá-las nos dedos, mas ainda assim, em matéria de filmes desse gênero, o saldo fica francamente positivo.
* * * * * * *
iii.
O mapa de Balneário Camboriú que me deram ficava no meio de um tipo de almanaque cheio de anúncios de restaurantes, hotéis, lavanderias e coisas assim e recheado de "matérias" interessantíssimas. Nenhuma delas, contudo, melhor do que as dicas de sedução.
Coisas do tipo: jogue a cabeça para trás; mexa nos cabelos; ante na frente dele com postura ereta, olhar fixo e determinado em algum ponto atrás dele e os quadris ondulando suavemente; vire o rosto para ele num ângulo de 45 graus, sorria e olhe para baixo... Todas as dicas vinham numa certa ordem cronológica da sedução e com explicações sensacionais da razão de ser de cada um dos "passos" da conquista, coisas como: "fazendo isso é como se você estivesse dizendo 'veja como eu sou vulnerável. Você poderia me apanhar com uma só mordida'".
Mulheres, corram para Balneário Camboriú e peçam o seu!
* * * * * * * * * * * *
E minha encheção de linguiça vespertina é interrompida pelo celular esperneando. Do outro lado, a senhora dona do castelo me dizendo que Davi deu seus primeiros passos. Assim, sem mais nem mais, levanta e sai andando e fica olhando pra todo mundo, orgulhoso com a admiração geral levantada. Eu trocaria a paisagem catarinense, com aquele céu azul e aquele mar ressabiado mas verde, por essa cena, fácil fácil.
- Marco Aurelio Brasil | 12:31 |
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quarta-feira, 30 de abril de 2008
Vida inteligente lá fora
De quando em vez alguma coisa vem e nos lembra daquela massa de forma, cor e envergadura indefinidas que existe em algum canto impreciso de nosso peito. Não de todos, claro, mas de boa parte de nós. Aquele troço que tem o vago nome de lirismo e que aponta para a necessidade inescapável de existir um sentido maior para o ato banal de respirar, ou então para o fato de existir sob a pele das coisas (citando Drummond), mesmo as mais rústicas, inacabadas, frias ou doloridas, uma beleza, tão difícil de processar quanto efetivamente... bela. Do tipo que se agiganta e emudece você. Do tipo que te reaviva lembranças bem específicas, bem adormecidas, que você nem lembrava mais que estavam ali.
Todo esse papo meio metafísico demais me surge por reconhecer que A trégua, do uruguaio Mario Benedetti, teve para mim esse efeito reavivador do lirismo empoeirado pela fuligem cotidiana.
Foi um presente da minha querida prima Danielle, e só de pensar que alguém pensou em mim lendo isto já me sinto lisonjeado demais.
A trégua é um livro pequeno, que você lê duma sentada. Foi publicado em 1960 e é do meu tipo predileto de literatura: escrito em primeira pessoa, como se fossem diários redigidos pra ninguém mais ler, o que confere um ar intimista e te dá aquela sensação de voyeur, sempre bacana, embora não o confessemos assim tão facilmente. No caso, os diários são de um sujeito às vésperas de completar 50 anos, viúvo e contador, com três filhos já adultos, lidando com a aposentadoria iminente (o que fazer com tanto ócio?), com a entropia, pequenas situações de trabalho e, no meio de tudo isso, uma inesperada, inusitada, paixão por uma colega de trabalho muito mais nova.
A foto de Benedetti na orelha dessa edição mostra um velhinho sorridente com a cara de um mineiro matuto. Seria impossível pressentir que haveria tamanha carga sentimental inteligente ali dentro!
A despeito do desfecho com um cheiro de clichê, entrou pro rol das coisas favoritas de se ler. Já citei aqui uma frase do livro, mas gostaria de transcrever a descrição que ele faz das relações inter-pessoais no escritório. Do tipo que tem aplicação universal.
E aprofunda o meu recente descobrimento do Uruguai, que começou com o filme Whisky, continuou com o cantor Jorge Drexler e agora deságua em Benedetti!
Outra coisa muito boa que cirandou aqui por dentro esses tempos foi Juno, o filme independente escrito por uma linda stripper e que narra a história de uma adolescente grávida que decide dar o filho para a adoção.
Quem me acompanha aqui sabe que eu sou tudo, menos atualizado em matéria de filmes. Este aí já não é nenhuma novidade e mesmo assim eu só vi porque a TAM teve o bom gosto de inseri-lo na programação de entretenimento de vôo na minha recente viagem.
Mas o que importa é que é um belo filme. Cheio de diálogos inteligentes, com boas atuações, com desenvolvimento e desfecho incomuns, sua força, contudo, não está aí, mas na verossimilhança dos personagens. É gente real, palpável. Gente em 3D. Não é gente como gostaríamos que elas fossem.
Aí, além de lembrar do tal lirismo latente (e por vezes dormente), lembro também do quanto isso faz falta: ver gente não idealizada, errando, refazendo a rota, dando meia volta, mostrando insegurança, mostrando fé.
- Marco Aurelio Brasil | 18:33 |
Quem comenta seus males afugenta. (0)

terça-feira, 29 de abril de 2008
Esta do Kibeloco merece reprodução:

- Marco Aurelio Brasil | 13:55 |
Quem comenta seus males afugenta. (2)

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