janeiro 25, 2008

Guga? Que Guga?

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Assim como o Brasil exporta craques para o futebol do mundo, os países europeus de idiomas complicados abastecem as quadras de tênis do planeta com jogadoras de muito talento e beleza. A prova está na decisão feminina do torneio da Autrália esta noite. Duvido que 70% dos homens que assistirem ao jogo sejam capazes de resumir a partida ou lembrar o resultado da mesma amanhã pela manhã, pois estarão mais entretidos em acompanhar tudo, menos tênis.

E você, torce para quem? Dá até pra escolher entre preferências pessoais, afinal, uma é morena e a outra loura.

(tá bom, amor, já estou indo deitar...)

janeiro 7, 2008

30...

e como disse o tiagón, 1978 faz 30 anos em 2008... conseqüentemente eu, o síndico e o próprio também entram na década que antecede os "enta"... minha vantagem é que ainda não comecei a sentir as "dores" da idade como os outros dois amigos, mas, elas não devem tardar a aparecer.

a vontade de ter um carro esporte chegou com mais de 10 anos de antecedência. agora não sei se me preocupo com isso a ponto de procurar um analista ou começo a trabalhar mais pra concretizar o sonho. meus dois amigos sabem a resposta.

vou falar muito sobre isto no ano que iniciou há uma semana. 30 anos. há 5 anos atrás eu nem pensava em casar, ser pai ou em fazer um plano de saúde. tenho algumas histórias sobre o tema. acho que rende um bom livro.

novembro 7, 2007

Até a pé nós iremos...

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Listas... Listas são patologicamente contagiosas. Basta alguém ter a idéia e logo todo mundo começa a fazer a sua lista pra comparar com a dos outros. E claro que, aqui no condomínio, não podia ser diferente. Bastou o Milton puxar a sacada de outros blogs para o Marco se empolgar e fazer a sua. E eu, claro, não podia ficar sem fazer a minha lista dos jogos que me deram as maiores alegrias futebolísticas.

Porém vocês vão perceber uma diferença "temporal" entre a minha lista e a deles. Por ser um rapaz, digamos assim, um pouco menos experiente que os amigos e vizinhos citados acima, as minhas alegrias são mais recentes. Por exemplo, eu não vi o Grêmio desbancar o Inter em 1977, saindo da fila do título estadual após 8 anos de conquistas do co-irmão. Mas, se tivesse visto, este gol do André Catimba com certeza estaria na minha lista. Assim como os gols do Renato na final do Mundial de 83 (eu já era nascido, mas só me dei conta do que estava acontecendo quando fomos receber o time nas ruas de Porto Alegre). Porém, eu estaria roubando uma alegria que verdadeiramente eu não vivi e seria um grande mentiroso.

Com isso, minha lista se limitou aos títulos e vitórias mais recentes do Grêmio, títulos que vi no Olímpico ou na TV. E ainda assim eu tive que tirar muita coisa: o gol do Cuca na vitória contra o Sport na final da Copa do Brasil de 1989; os 6x1 no Flamengo naquele mesmo ano; alguns frangos do Tafarel em Grenais; a vitória arrasadora contra o Corinthians na final da Copa do Brasil em 2001 e outros jogos históricos e heróicos do Grêmio.

Enfim, chega de tergiversar e vamos ao que interessa:

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Grêmio e Nacional, final da Libertadores de 1995
O Grêmio tinha enfiado 3x1 fácil em Porto Alegre, o que nos fez prever um jogo tranqüilo na Colômbia. Mas os caras fizeram um gol logo no início e, naquele tempo, a Libertadores contava com o saldo qualificado, gol fora valendo dois no desempate. Entocado em casa, eu sofria com os gritos dos vizinhos que aplaudiam cada ataque adversário. Mas, aos 40 do segundo tempo, em cobrança de pênalti, o cangaceiro Dinho empatou o jogo e pintou Porto Alegre e a América de azul pela segunda vez.

Grêmio e Portuguesa, final do campeonato Brasileiro de 1996.
O gol de Paulo Nunes no início do jogo me fez acreditar que seria fácil... doce ilusão. O grito de campeão só desentalou da garganta com menos de 5 minutos para o fim do jogo, e dos pés de Aílton, um jogador desacreditado (e ruim), que acertou um chutaço de fora da área no canto esquerdo do Clemer (sim, ele já jogava naquela época, e já era o velho do time, pois neste elenco da Portuguesa se criaram os garotos Rodrigo Fabri e Zé Roberto). A explosão do estádio em festa no momento daquele gol nunca mais me saiu da memória.

Grêmio e Flamengo, final Copa do Brasil de 1997
Depois de um empate em Porto Alegre, os cariocas davam como certo o título do campeonato. Mas esqueceram de avisar o João Antônio, que fez o gol mais lindo da carreira dele naquela noite, e o Carlos Miguel, que concluiu uma linda jogada do Roger pela esquerda, empatou o jogo e deu o título ao imortal, calando o maraca e o Romário.

Gremio e Inter, final do campeonato gaúcho de 1999
Nem eu nem o Dunga conseguimos esquecer este jogo. Além de marcar um golaço dando uma caneta no Anderson, tabelando com o Capitão (bah!!!) e tocando na saída do André, Ronaldinho, que naquele tempo ainda não tinha esta alcunha imposta pelo Galvão Bueno, deu um chapéu no Dunga que foi mais comemorado pelo Olímpico do que o gol do título. Não podia ser mais alegre.

Grêmio e Nautico, 17 de novembro de 2005
Não sei dizer se foi um momento de alegria ou de desabafo, de alívio que culminou com o dia em que meis gritei e comemorei uma vitória do meu time na vida. Dois pênaltis contra, o Djalma inventando faltas e truncando o jogo, a pressão de ver o Inter com chances de conquistar o Brasileirão e ser tetra... Tudo e todos jogavam contra naquele ano. A defesa do Galatto e aquele gol do Anderson (nome de craque, claro) com jeito de pelada de rua levou a nação ao delírio. E fez o Grêmio voltar a ser O Grêmio.

novembro 6, 2007

ditos andersônicos # 001101011

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Num mundo repleto de máquinas, sempre é preciso alguém para (des)conectar o fio da tomada.

setembro 19, 2007

# 4 (tem vezes que as segundas só chegam nas quartas...)

Dentro do bar decidi que iria novamente encher a cara. Um pouco pela frustração com Sandra, um pouco pela decepção com o AA. Carlos não parecia bravo com o ocorrido e servia-nos como se nada tivesse acontecido, o que me pareceu estranho para alguém aparentemente estúpido pelo tratamento dispensado à cliente que presenteou-o com um banho de uísque vagabundo. Foi muito simpático e adulou por demais minha irmã, sempre enchendo seu copo com doses generosas de tudo que ela lhe pedia.

Achei que não ia conseguir fazer Bete sair do bar aquela noite. Ela estava impossível e queria porque queria esperar o bar fechar pra passar a noite com o Carlos. Estava disposta a consolá-lo do banho de uísque que levara de Sandra. Acabamos mesmo esperando Carlos trancar a porta da biboca, mas Bete estava tão bêbada que não tinha a mínima condição de andar sem ser amparada por alguém, o que fez nosso garçom desistir de traçar a minha irmã. E, confesso que eu não estava nem um pouco a fim de ver minha irmã indo pra casa com um cara daquela estirpe.

- Carlos, promete que da outra vez voxê me leva pra zua casa? Eu prometo que bebo menos.

Carlos apenas sorriu e acenou para a gente antes de tomar o rumo de sua casa. Depois eu vim a descobrir que ele morava ali perto, numa quitinete pequena onde ele abrigava incautas bêbadas que se encantavam pelos seus cabelos, compridos demais para alguém que aparentava ter mais de 40 anos, e por sua truculência máscula que até aquela noite nunca havia sido revidada por uma mulher. Alguns homens já haviam tentado botar o garçom em seu lugar na base da pancada. Nenhum havia obtido sucesso, o que encantava ainda mais as moçoilas levemente alcoolizadas que lá freqüentavam.

Eu não tinha carro. Assim, fui obrigado a levar Bete apoiada no ombro, com meu braço passando por sua cintura e erguendo-a no ar para que pudéssemos andar mais depressa. Podia pegar um táxi, mas aquela hora os taxistas todos deveriam estar dormindo ou na rodoviária aguardando os ônibus da madrugada. Cidade pequena não tem facilidades bastante comuns em metrópoles, como um bom sistema de táxis, além de ser caro demais se comparando o valor da bandeirada em cidades de maior porte. E, na minha lógica de bêbado, me parecia ser muito fácil arrastar Bete a tiracolo por meros sete quarteirões até a minha casa.

- Zabia que eu te ascho o melhor irmão do mundo? Aliássss, tu é a melhor pesss... pessoa do muuundo.
- Bete, cala a boca.
- É sssério.

Sempre que meus amigos ficavam bêbados eu os deixava jogados pela rua, eram homens, que se virassem com suas fraquezas, ou que fosse procurar o AA. Minha irmã eu não podia deixar por aí como se fosse uma qualquer. Não tenho certeza de quanto tempo levamos para chegar em casa, mas acredito que tenha sido muito mais que o necessário para duas pessoas sóbrias percorrer a distância que separava meu apartamento do bar. Sorte que não vai precisar subir escadas, pensei assim que abri a porta do prédio com dificuldades devido a encomenda que trazia a tiracolo, pois morava no térreo. Também fiquei feliz ao perceber que Bete mais dormia que caminhava ao meu lado, assim, ela não faria nenhum escândalo típico de bêbado antes do sono, como vomitar toda minha sala ou fazer discursos que pudessem acordar os vizinhos.

Quando abri a porta, Tyson veio nos receber. E continuava falando.

- De novo esta bêbada vai dormir aqui? Já não basta a sujeira que ela fez da última vez?
- Tu ainda não parou de falar comigo? Tu é um cachorro, pára de falar comigo. Cachorros não falam!
- E tu ainda não parou de beber? O dia que tu parar de beber eu paro de falar contigo.

Lembrei do AA, e lembrei de Sandra. E lembrei que eu não deveria discutir com um cachorro vira-lata com nome ridículo àquela hora da madrugada. Acomodei Bete na minha cama e liguei a televisão antes de me encostar no sofá para tentar dormir.

- Tyson, se ela vomitar, me chame.

setembro 14, 2007

Banana pra dar e vender...

gbot.jpgSou publicitário, e como publicitário, sou estudioso do comportamento do consumidor e devido a este conhecimento estou, sem falsa modéstia, habilitado a compreender como a reação das pessoas aos estímulos provocados pela propaganda e ações de empresas podem infuenciar na decisão de compra ou não por parte do consumidor. E, na minha ignorância artística compreendo que o apreço pelas artes em geral se dá de modo parecido: através da literatura, do cinema, artes plásticas, intervenções e muito mais somos estimulados a pensar de forma diferente, contrária ao fluxo de raciocínio dos demais mortais e com isso passamos a enxergar os acontecimentos com outros olhares e percebemos que a verdade pode ter várias facetas (adoro esta frase, foi extraída do livro A droga da obediência, da Coleção Vagalume, lida, provavelmente, com 12 ou 13 anos). Assim, os estímulos artísticos que provocam os sentidos despertariam (ou deveriam despertar) naqueles que os recebem, reações de prazer, êxtase, satisfação... Emoções, enfim.

Posso estar parecendo simplista, mas acredito que a arte quando realmente é arrebatadora ela é mesmo simples em sua essência, no conceito que representa e na forma como estimula os sentidos com o objetivo de gerar uma reação, seja favorável ou não. Por isso fiquei boquiaberto com um projeto extravagante que, segundo o site oficial, não tem nem um conceito concreto ou um objetivo para se fazer compreender até mesmo por cabeças bem avançadas em assuntos artísticos (não que eu me encaixe neste tipo de pessoa, longe disto). Mas, considerar que seja arte uma banana voadora gigante, passou dos limites demais.

Ainda no site, na aba sobre o conceito da intervenção, eles não se rogam em considerar a atitude absolutamente banal e fútil, absurdo, um ato sem sentido. Consideram também que há um aspecto irônico no ato. E deve haver, afinal de contas gastar 1 milhão de dólares para a realização desta patuscada é realmente muito engraçado, quando o dinheiro não é nosso e quando nós não paramos para pensar em quanto este dinheiro poderia ser útil em ações humanitárias. Segundo os organizadores "a intenção é alegrar um pouco o ambiente do Texas", estado norte-americano por onde a bananinha flutuará cerca de um mês (detalhe, no Texas, bananas não crescem, ou seja, as frutas não se criam nas terras de lá, que são inférteis para este tipo de cultura).

Então eu pergunto: o que esta intervenção pode provocar em todos os texanos que ficarão durante um mês visualizando uma banana sobre as cabeças? Vão refletir sobre como suas inférteis terras são pobres por só darem petróleo ao invés de bananas? Vão achar que estão chamando todos os texanos de bananas devido a administração chiliquenta e cheia de equívocos do atual presidente do país deles? Acharão que se plantarem bananas no céu ao invés de plantar na terra poderão se tornar um grande exportador de bananas? Porque eu achei simplesmente ridículo e se eu fosse alguém que dependesse da arte para viver, me sentiria envergonhado ao ver alguém me dizer que esta intervenção é arte.

Tirem suas conclusões, discutam, atirem pedras. Ou melhor, me ajudem a compreender esta tal de arte que considera bananas voadoras sublimes mensageiras que "talvez sirvam para dar direção as pessoas, um signo profético", como dizem seus realizadores.

PS: Sandra volta a fazer parte do meu dia-a-dia a partir de segunda-feira. Gosto dos personagens, da história estilo Bukowski.

setembro 13, 2007

É coisa nossa...

Eu poderia estar aqui hoje, como muitos blogueiros fizeram durante o dia, lamentando a absolvição de Renan Calheiros, conquistada sob o aval da bancada governista (que hoje não limita mais ao pt, infelizmente, o que dificulta e muito minhas rotulações). Mas, esta é uma notícia que não me choca, nem a mim e nem a muitos que conheço. Chocante seria a absolvição dele, assim como será chocante a condenação daqueles envolvidos no mensalão. Agora, o que realmente me impressiona nesta história é a eficiência formidável do Serviço de Inteligência do Palácio do Planalto: sempre que estoura algum escândalo do governo ou algo que o valha, o molusco está fora do país fazendo visitas de extrema importância para o desenvolvimento pujante da nossa nação... já dizia Melamed: "não existem conincidências, existem sim, N formas de se dizer a mesma coisa...".

Assim, o fato do dia que realmente me chocou foi a morte do Pedro de Lara. Por ser ele um pernambucano que antes de preocupar-se com cobiça e poder, preocupou-se antes em adquirir conhecimento e cultura para depois galgar passos maiores em sua modesta vida de jurado, escritor, empresário entre outras atividades. E como jurado me ensinou que devemos sempre ver além do que a televisão realmente mostra. É dele uma frase ótima a respeito do comportamento de seu antigo "patrão" no tratamento com subalternos e demais inferiores.

"Tem gente no mundo que é tão pobre, mas tão pobre, que só tem dinheiro".

Pedro de Lara, la,
la, la, la, la, la...

setembro 12, 2007

faísca muito atrasada

O fato de eu só ter me dado conta hoje pela manhã que ontem foi 11 de setembro, aniversário de 6 anos de um ataque terrorista que aniquilou milhares de pessoas em solo norte-americano, confirma o fato de que eu sou absolutamente insensível ou apenas quer dizer que eu tenho coisas mais importantes a fazer e que me falta até tempo pra ler ou assistir aos noticiários em alguns dias da semana?

setembro 9, 2007

# 3

Saí correndo do bar e alcancei Sandra a poucos passos da porta, que bateu com força atrás de mim tamanho meu desenfreio ao sair atrás dela. O barulho a fez parar e girar rapidamente para procurar a origem do som, a bolsa agarrada ao corpo como se temesse um assalto. Seus olhos assustados pareciam ser muito maiores que o normal, e sua boca contraída demonstrava que quem ela esperava passar por aquela porta era Carlos em busca de vingança. Tanto que seu rosto fechado logo se desfez em uma interrogação curiosa do tipo “quem é este idiota que veio atrás de mim”. Ao admirar aquela transformação na sua face pude constatar que ela realmente não era bonita. Mas tinha personalidade, como provara lá dentro. E eu nunca poderia me casar com uma mulher bonita de verdade, com rosto bem desenhado, sorriso angelical, olhos harmoniosos, narizinho arrebitado e pele aveludada, eu não era suficientemente bonito nem inteligente pra isso. Tanto que nem era capaz de iniciar um diálogo com uma mulher feia logo após sair correndo atrás dela na saída de um bar de péssima reputação como aquele do qual eu acabara de sair atrás de uma moça que até então eu nem sabia o nome e só havia visto uma vez em um encontro do AA. Não sabia se perguntava o nome dela, se a elogiava pela atitude com o garçom ou se devia dizer que eu a havia visto na reunião acompanhada do pai e o quanto achei ridículo tudo que vi lá. Poderia dizer também que ela era mulher da minha vida por ser feia e ter muita personalidade. Claro que não disse nada, não era capaz de dizer nada que fizesse o mínimo sentido para ela naquele momento. Fui salvo por uma buzina. E um berro de homem que chamou o nome dela com muita gravidade.

- Sandra! Tudo bem? - era o pai dela, pendurado na janela de um carro antigo. Me encarava com autoridade, embora não fizesse menção de sair do carro, seus olhos nem se dirigiam para ela – Vem logo que está tarde.

Sem responder e com ar de desdém, ela me olhou mais uma vez e virou-se para entrar no carro no banco do carona. O homem ainda ficou me observando de alto a baixo alguns segundos, quase me desafiando e esperando que eu dissesse ou fizesse alguma coisa para ele ter motivo para reagir e me encher de pancada. Apesar de não ser muito novo e ser mais um alcoólatra daquele grupo deplorável do AA ele parecia forte o suficiente pra me derrubar sem dificuldades. Lembro dele ser alto quando fez seu testemunho na reunião. Por isso, apenas fiz um aceno rápido de cabeça e tive como resposta um dedo médio torto e ereto. Voltei pra dentro do bar caminhando de costas, talvez preocupado com um ataque surpresa, talvez desejando enxergar o carro arrancar e ver qual direção ele tomaria, mesmo sabendo que eu não iria segui-lo. Entrei no bar ainda muito frustrado por não ter conseguido falar com Sandra. Nosso primeiro encontro com palavras se deu depois de duas semanas, no mesmo bar. E naquela noite eu levei um banho de uísque da boca dela. E Bete deu mais uma clara demonstração de como o álcool tem poder sobre a sua vida e seu corpo.

setembro 3, 2007

e tudo na vida é relacionamento...*

me conte mais mentiras
e acreditarei em você de verdade.
diga que me ama mesmo sem sentir,
diga por pura maldade.
esqueça o que eu quero,
realize apenas as suas vontades.
não precisa se doar por inteiro,
me contento só com a metade.
não é desilusão,
apenas reconheço a obviedade
de que todos relacionamentos,
indiferente de idade,
só são plenamente felizes
quando presente a insinceridade.

* já diziam dois grandes amigos

agosto 28, 2007

# 2

Bete tinha razão. Ao final da reunião eu não tinha a mínima vontade de tentar deixar a bebida. Apesar de os depoimentos serem contundentes e muito comemorados com salva de palmas pelos presentes, os semblantes de todos me passavam a sensação de fracasso. A felicidade de manterem-se sóbrios mais um dia contrastava com a certeza de que a briga com a bebida só seria vencida se não houvesse enfrentamento. Os corpos deles não eram suficientemente fortes para identificar a hora de parar, por isso evitavam o primeiro gole, por isso fugiam do álcool, por isso estavam ali, para reconhecer que tinham um problema e que não sabiam como soluciona-lo sem fugir. Foi o que eu conclui daquela reunião. Se estava certo ou não, só o tempo poderia me dizer. Mas, uma coisa eu tinha certeza: alguém como Sandra não deveria estar naquela sala.

Sandra era morena, tinha olhos claros e tristes e sua boca fina como fenda fazia um conjunto pouco harmônico com seu nariz levemente adunco. Enfim, não era mesmo bonita. Durante a reunião ela não se aproximou do grupo que fez discursos, assistiu tudo de longe, olhando constantemente no relógio, demonstrando impaciência. Sandra não era alcoólatra. Estava ali apenas acompanhando o pai, que em seu discurso emocionado naquela noite, contou a todos que há quase dois meses não bebia e que a filha na qual tinha batido quando esteve bêbado pela última vez estava presente, e que o perdão e o incentivo diário dela o faziam acreditar que venceria esta batalha eterna contra o primeiro gole. Foi o momento mais emocionante da noite para todos os presentes, menos para mim e para Sandra, que mesmo esboçando um sorriso amarelo a todos que fizeram questão de levantar-se para cumprimenta-la, não conseguiu disfarçar o constrangimento.

Na saída da reunião evitei cumprimentos, mas observei o pai de Sandra aproximar-se dela para abraça-la. Ela procurou desvencilhar-se rapidamente e conversaram sem olhar-se nos olhos. Sandra olhava para o relógio e ele parecia querer estender aquele encontro o máximo de tempo possível. Ao fim de alguns segundos saíram juntos e continuaram a conversa do lado de fora. Ao lado deles, próximo de uma lata de lixo, um cachorro remexia o lixo em busca de comida. Lembrei da minha conversa com o Tyson e de Bete, que provavelmente ainda estava no bar próximo conversando com o garçom ou com algum cliente besta que estivesse pagando bebidas na esperança de passar a noite com ela. Fui até lá.

Bete estava dançando sobre o balcão. A sua volta, três homens cantavam a música Boate Azul acompanhando o som abafado do sistema de som do local. Se eu não a conhecesse confesso que ficaria bastante assustado com a cena, mas, para quem a conhece como eu conheço, essa imagem apenas representava o início de uma longa noite regada a bebida barata e sexo casual. Apesar do rosto surrado pelo tempo e pela vida desregrada, Bete tinha sex appeal e sabia como fazer para deixar os homens a vontade ao seu lado. E suas pernas ainda encantavam como antigamente. Sentei em uma mesa próxima e esperei ela acabar seu show antes de pedir minha bebida, já que o garçom dificilmente iria deixar de assistir o espetáculo. Quando acabou a música ela me viu e pulou no meu colo, deixando os colegas de bar um pouco frustrados.

- E então, como foi sua reunião?
- Ótima. Vim até aqui tomar um copo de água e já vou pra casa.
- Mentiroso – e virou-se para o garçom – Carlos, serve um duplo caprichado pro meu irmão.

Ao ouvir a palavra irmão, todos abriram sorrisos pra mim e me convidaram para sentar com eles no balcão. Aceitei. Sandra disse que eu vinha de uma reunião do AA e todos fizeram algumas piadas infames a respeito. Conversávamos futilidades quando uma voz feminina chamou a atenção de Carlos, o garçom perguntando onde era o banheiro.

- O banheiro aqui é só pra clientes – respondeu contrariado.
- Então me serve um uísque duplo que eu já volto pra beber. Aonde é o banheiro?
- Nos fundos, à esquerda.

Virei para ela. Claro que era Sandra. Passou correndo pelo balcão e dirigiu-se aos fundos. Carlos serviu seu uísque e o colocou em uma mesa próxima. Ficou ao lado esperando que ela voltasse. Bete brincou com ele.

- Não abre muitos sorrisos pra ela que vou ficar com ciúmes.

Sandra voltou do banheiro.

- Quanto é?
- Dez reais.

Entregou o dinheiro para ele, entornou o copo todo na boca e cuspiu na cara de Carlos.

Obrigado pelo banheiro e pela bebida – disse, e saiu sem olhar para nenhum de nós. Corri atrás dela, precisava conhecer pessoalmente aquela mulher.

agosto 23, 2007

# 1

Pois, na manhã em que o Tyson, meu cachorro viralata (eu sempre fui péssimo pra dar nome à cachorros), decidiu discursar sobre os rumos da economia mundial na era da globalização, logo após eu acordar de uma tremenda ressaca, eu percebi que havia passado dos limites e estava na hora de parar de beber. E olha que nem mesmo a Marília ter ido embora da minha vida tinha me feito tomar uma decisão de tamanha responsabilidade. Então, procurei no guia o endereço dos grupos do AA espalhados pela cidade. Encontrei dois e quando ia em direção ao telefone para perguntar qual o horário dos encontros, o maldito resolveu tocar. Eu não devia atender, já sabia quem era, mas eu nunca ficava sem atender o telefone, a campainha tocando me dava nos nervos.

- O que tu quer?
- Por acaso teu cachorro conversou contigo esta manhã?
- Sim, Bete. Por que?
- O meu também. Acho que a gente precisa parar com isso. Estamos passando dos limites.
- Eu sei. Ia agora mesmo ligar para o pessoal do AA e descobrir o horário dos encontros deles. Vamos junto?
- AA? Que bobagem... Eu já tentei, não funciona.
- Você é uma fraca.
- Sou nada.
- E você não sabe o que está falando, ainda está bêbada.
- Sei que o AA não funciona, já tentei. E você também está bêbado.
- Não estou bêbado, estou de ressaca. E como você sempre cura suas ressacas com mais duas cervejas, só posso supor que você está bêbada pra dizer que o AA não funciona.
- Não funciona mesmo. A gente precisa achar outra forma de acabar com isso.
- Qual?
- Não sei. Vou até tua casa pra gente pensar juntos.
- Nem pensar. Preciso conversar com meu cunhado pra descolar mais um atestado pra justificar minha falta no trabalho. E ainda tenho que limpar o chão da sala que você deixou todo vomitado.
- Se tu comprasse vinho de boa qualidade, isso não aconteceria.
- Tu não tem que trabalhar?
- Já são quase uma da tarde, não adianta chegar lá agora. E eles nem devem ter sentido minha falta
- Mas é melhor você não vir. Ligo a noite e vamos juntos no encontro do AA.
- Não vai funcionar.
- Tchau.

Bati o telefone, senão ela ficaria querendo conversa por mais uma hora. Fiquei imaginando sobre o que o cachorro de Bete poderia ter conversado com ela. Na verdade, nem sabia que ela tinha um cachorro. Acho que não tinha. Me servia de consolo, afinal o caso dela parecia mais complicado que o meu.

Oito da noite eu estava na frente da porta de entrada do grupo a espera de Bete. Menos de trinta metros dali, um boteco esgueirava-se por entre as portas sujas daquela parte da cidade. Estranho um AA ali, mas aparentemente parecia bastante necessário pois diversas pessoas freqüentavam aquela sessão. Figuras deprimentes passaram por mim adentrando no local enquanto meu cigarro e minha paciência iam acabando ao esperar aquela destrambelhada. Duas delas me chamaram a atenção, chegaram juntas até. Uma moça bem jovem e bem feia e uma senhora que desceu de um carro grande, aparentando ter motorista, pois saiu pelo lado do carona e logo o veículo arrancou. Decidi entrar depois que elas passaram, já cansado de aguardar Bete. Quando joguei a guimba no chão, vi a figura esguia dela surgir na porta de um bar próximo, me chamando aos gritos.

- Mudaram a reunião de lugar. Vai ser aqui. Já reservei um lugar pra você no balcão.
- Desistiu do AA?
- Disseram que eu não posso entrar bêbada.
- Vou aproveitar que ainda não estou bêbado pra entrar.
- Isso não vai funcionar. “Hoje eu não bebi!”, dããã... Que bobagem.
- Falamos amanhã.

Entrei. Aparentemente todos se conheciam lá dentro, cumprimentavam-se tentando demonstrar entusiasmo diante de mais um dia sem ingerir uma gota de bebida. Estavam todos bastante próximos conversando afavelmente que nem perceberam minha entrada e aproximação. Cumprimentei o grupo com um aceno de cabeça e, talvez por constrangimento, comecei a procurar um lugar para sentar que estivesse mais distante dos demais. Foi quando percebi uma jovem, que não me chamara a atenção quando entrei. Não era bonita, estava visivelmente deslocada e não conseguia disfarçar sua contrariedade em estar ali. Depois descobri, aquela também era a primeira vez de Sandra no AA.

(continua)

agosto 21, 2007

Seu Gervásio

Seu Gervásio sempre gostou de crianças. Quando jovem, bastava um sorriso infantil para derretê-lo todo. Sentava no chão com elas, brincava de pião, bolinha de gude, batia bafo. Até de boneca brincava quando avistava um grupinho de meninas. Quanto mais crescia, mais aumentava sua paixão. Marceneiro dos melhores, sempre que tinha pouco trabalho, confeccionava carrinhos, caminhões, casinhas de boneca, piões e tudo mais que suas hábeis mãos podiam fazer para doar as crianças que sempre se encontravam na praça, em frente de sua pequena marcenaria. Mal encerrava o expediente e corria para o coreto que lá havia e distribuia sua produção diária. Muitas vezes divertia-se mais que as crianças.

Casou-se com Dona Emma e o primeiro filho levou menos de um ano pra nascer. Seu Gervásio montou o quarto com carinho. Não tinha cansaço ou problema que o impedisse de dedicar horas a fio brincando, lendo, ensinando. Mas, seu Gervásio queria mais um filho, mais um motivo para aumentar sua alegria. Não tardou para que uma linda menina de cachinhos dourados enchesse a casa com a sua graça. Não tinha pai mais apaixonado pelos filhos em todo Vale do Itajaí. Brincava com eles, com os amigos deles, com os amigos dos amigos deles e todos o adoravam. As crianças cresceram, mas seu Gervásio sabia onde encontrar novos amiguinhos e continuar a dar os belos presentes que fazia. Sonhava diariamente com a chegada do primeiro neto. Os amigos não tinham dúvidas de que seu Gervásio seria daqueles avôs de histórias infantis, até diziam que ele seria uma “Dona Benta de calças”. Ele se divertia e aguardava o momento que um de seus filhos comunicasse a boa nova.

Pois sua filha surpreendeu-o em pleno aniversário de 20 anos de casamento, comunicando que seria avô em sete meses. Seu Gervásio não cabia de felicidade, beijava a barriga da filha, a boca do genro, bebia vinho e sorria feito bobo. Poucos dias tinham sido tão felizes na vida de seu Gervásio como aquele. Tanto que reuniram-se no carro de seu Gervásio para visitar o filho mais velho, que morava em outra cidade, para contar a novidade.

Porém, no caminho entre a felicidade de seu Gervásio e a casa do filho, estava a BR 470, em péssimo estado de conservação. Seu Gervásio não vai mais ser avô, não é mais pai da sua filha e nem marido de Dona Emma. E não freqüenta mais a praça das crianças, pois cada vez que vê um sorriso infantil, se põe a chorar.


[só pra constar, este texto foi enviado há tempos atrás ao Jornal de Santa Catarina, num momento em que o número de mortes da BR que beira Rio do Sul atingia números alarmantes; infelizmente o texto foi ignorado pelo jornal, talvez não seja tão bom...]

agosto 16, 2007

Elvis "Maarondona" Presley

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Imagina só: um garotinho argentino chegando pra conhecer a família da namoradinha, com uma camisa do Boca e umas costeletas tipo Elvis, e se depara com o próprio no outro lado da mesa, já que este é o avô da menina? E reclamando da barba mal-feita do moleque!

Bobagem? Não é o que pensam os organizadores desta pérola documental. Reparem, na parte final do filme, o jeito que eles jogam o pobre idoso no banco de trás do carro pra logo em seguida fugir em desabalada carreira, deixando pra trás um singelo urso de pelúcia caindo aos pedaços.

Ah, as teorias conspiratórias. Eu as adoro. E o Aran também.

agosto 10, 2007

Mãos...

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Hoje as tuas mãos pequeninas
cabem com sobra entre as minhas.
Por isso, seguro-as com firmeza
e te protejo, te acalento
e te conduzo por caminhos que passei,
apresentando um mundo novo
em cada passo que damos juntos.

Um dia, elas serão maiores que as minhas.
Então, tuas mãos também conhecerão
um par de mãos pequeninas.
E tu vais pega-las com cuidado
e pelos mesmos caminhos
que hoje andamos juntos,
teu filho andará também.

Seguro, confiante e desbravador,
alegre em saber que sua presença,
porto seguro do paterno amor,
o faz forte e capaz
de enfrentar qualquer temor.

Eu não te faço filho.
É você que me faz pai.
E sou muito grato por isso.


Homenagem a todos que têm a responsabilidade
de conduzir pequeninas mãos por este mundo afora,
pela passagem do Dia dos Pais...