Que 2010 é o Ano em que Faremos Contato todo mundo já está careca de saber: Arthur C. Clarke celebrizou a data (por intermédio de Jorge Luiz Calife). Agora, depois que todos já achamos bastante graça (com razão) do trocadilho, a pergunta permanece no ar: contato com o quê?
O título deste post não é original: ele é tomado de empréstimo ao sensacional livro de Frederic Jameson, Archaeologies of the Future - The Desire Called Utopia and Other Science Fictions, em que ele analisa obras de autores como Philip K. Dick, Ursula LeGuin, William Gibson e Kim Stanley Robinson, numa tentativa de entender suas utopias e distopias.
E, para os que curtem cultura pop, vale a menção à clássica história Um Sonho de Mil Gatos, publicada na edição número 18 de Sandman, onde o sempre genial Neil Gaiman conta a história de como um sonho sonhado por muitos pode se tornar (literalmente) realidade.
(Por coincidência (ou não), uma das frases célebres de Dom Hélder Câmara era justamente a seguinte: "Quando sonhamos sozinhos é só um sonho; mas quando sonhamos juntos é o início de uma nova realidade". Isto poderia até ser interpretado como um pensamento simplório pelos idiotas da objetividade, mas nós que sonhamos sabemos que o buraco - Alice que o diga - é sempre bem mais embaixo.)
Meu trabalho de escavação já começou há algum tempo - não o alardeei porque 2009, apesar de ter sido um dos meus anos mais produtivos, também foi um ano de dor (física) e perdas (mortes na família). Outras coisas também foram acontecendo ao longo do ano: alegrias e tristezas, surpresas e decepções, enfim, isto a que chamamos de vida.
A vida quase me fez acabar com este blog. Por nenhum motivo em especial: apenas porque em um determinado momento senti necessidade de calar. De fazer silêncio. Estudei muito Wittgenstein em 2009, e acho que só agora entendi o significado (acho, faço questão de reiterar; com os filósofos nunca se deve ter certeza de nada) da última tese do Tractatus: Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.
Houve quem entendesse esse silêncio e esse afastamento como um descaso; houve quem levasse para o lado pessoal. Não foi uma coisa nem outra. 2008 foi um ano de (re)criação e realizações; 2009 foi um ano que começou com mais realizações e terminou com um projeto realizado (o romance Os Dias da Peste) e vários outros projetos em aberto, em gestação. Aos poucos, projetos antigos foram abandonados. Projetos mais recentes continuam sendo pensados e planejados - e quanto aos projetos futuros, quem sabe? Todas as portas estão abertas. Por paradoxal que possa parecer, gosto de comparar o Futuro à antiga cidade egípcia de Tebas, com suas Cem Portas sempre abertas. Todas as possibilidades estão ali, à espera. Fechando (como abri) com Arthur C. Clarke em 2010, "todos estes mundos são seus".
Mas, como na 2010 da ficção, também havia uma exceção. A exceção do livro era o ex-satélite joviano Europa. A exceção do nosso 2010 real é o Passado. Este está fechado para sempre.
Este é o meu desejo para 2010. Que o futuro esteja sempre aberto para todos nós.